ESTRANGEIROS NA PRÓPRIA TERRA: UMA PROPOSTA DE LEITURA DO LAVOURA ARCAICA

 

Isabel Cristina MoreiraAguiar - UFPE

 

 

Era uma vez um patinho feio. Feio e estranho. Suas penas eram visivelmente diferentes, seu pescoço era comprido demais, seu andar era desajeitado, sua voz era desafinada... Tudo na estória desta já bem conhecida personagem parecia correr na contra-mão, até que, um dia, ela deixou de ser patinho e passou a ser cisne. Desta vez um belo e nada estranho cisne. É assim que este aparente desenredo encontra um desfecho feliz, pois, ao final, esta situação de deslocamento e conflito desencadeia uma busca pelas “verdadeiras” origens, culminando com a recuperação de uma identidade que nem se sabia, pelo menos a princípio, perdida.

Era uma vez, agora, um outro patinho. Um patinho também feio e estranho. Um patinho de penas diferentes, pescoço comprido, andar desajeitado, voz desafinada, mas mesmo assim um patinho. Um patinho igualzinho aos outros, embora fosse tão diferente. Nascido como qualquer patinho, no mesmo ninho dos outros patinhos, crescendo provavelmente sob os cuidados de uma dona patinha qualquer, mas cuja grande angústia era, sendo pato, não ser pato, ou em outras palavras, cujo grande conflito existencial consistia em ser feio e estranho, estranho no próprio ninho, perdido no lugar onde deveria encontrar-se, irremediavelmente isolado das suas próprias origens.

A segunda situção, mais que a primeira, é bastante exemplar no que se trata do romance Lavoura Arcaica do paulistano Raduan Nassar. A estória parece ser uma recriação da parábola do filho pródigo, acrescentada de alguns conflitos primordiais. O centro da estória gira em torno de André, filho do meio (posição que ressalta seu deslocamento no quadro familiar) que após envolver-se incestuosamente com sua irmã, Ana, abandona a casa paterna. Retorna para casa trazido pelo irmão mais velho, Pedro. Após seu retorno presencia a explosão de ira do pai mediante a descoberta do incesto, que desencadea a morte da irmã e a subseqüente do pai. Contudo, é para a peculiaridade de certos aspectos relacionados a este romance que se pretende chamar a atenção.

Um primeiro elemento a imprimir certas impressões de estranheza nesta narrativa é a sua própria personagem principal, uma espécie de filho pródigo às avessas. Às avessas, dentre outras razões, porque parece inadequado falar da volta à família de um filho que jamais se sentiu, via de fato, parte integrante dela. Estranho no ninho, estrangeiro na própria terra, André é portador do conflito de ver-se perdido na tentativa de assenhorar-se de um espaço que a rigor já há muito deveria lhe pertencer. É assim que ele tenta apossar-se de um corpo que já era, de certa forma, de sua posse (ao marido, aos filhos, ao pai e aos irmãos pertencem os corpos e a honra das mulheres de um família) e toma sua irmã por mulher como a tomaria um marido, ou, melhor dizendo, como tomaria um estranho que buscasse tornar-se membro da família.

Outro elemento a causar a mencionada impressão de estranheza é a linguagem. Também ela é estrangeira e incestuosa, assim pelo menos o atestam o lirismo e as inúmeras citações. Uma das grandes curiosidades do livro, além da ausência de pontuação final em capítulos inteiros, é a abundância de citações não aspeadas do Alcorão. Tendo em vista que o processo de citação é bastante comum em todos os tempos, tal fato não teria maior relevância, não fosse em função de alguns aspectos. Dentre eles, considere-se primeiramente o seguinte: se poder se dizer é criar-se, é constituir-se, dizer-se com as palavras de um outro pressupõe uma contradição, uma vez que, deste modo, o diferente necessitaria do igual para conceber-se como diferente.O que de fato procede. Fora do eixo da comparação não há possibilidade nem de igualdade, nem de diferença. Daí o antagonismo demonstrado pelo sentido da palavra identidade. Ela ao mesmo tempo refere-se, de certa maneira, à tentativa de demarcar os traços que distinguem um indivíduo do outro e à possibilidade de encontrar traços comuns, tal qual o deixa claro uma palavra sua cognata – identificação.

Deste modo, parece tornar-se evidente uma outra contradição fundamental, embora pouco perceptível no romance. Pensar André, única e exclusivamente, enquanto ovelha negra, desgarrada e convicta de seus valores, de sua posição é deixar de confrontar-se com a questão aqui chave: a de uma ovelha convictamente desgarrada que, contudo, deseja ardentemente encontrar seu lugar no rebanho.Dito de outro modo, se André, por um lado, não logra situar-se no espaço que outros lhe destinaram; por outro, não pode conceber a idéia de permanecer sem lugar.

Ao inserir em sua fala passagens do Alcorão quase como as fundindo, o narrador visa não só contestar, por meio da ironia, a autoridade das escrituras, mas visa também encontrar um espaço do qual possa vir a fazer parte. Assim, o discurso imperativo e legislador do livro sagrado dos mulçumanos dissolve-se num lirismo recoberto de imagens que lembram o livro, mas cuja sensualidade imprime um caráter nitidamente profano. Levando em consideração este aspecto, torna-se importante observar na leitura de Lavoura Arcaica que o Alcorão não se constitui numa referência a priori, estabelecendo uma relação em que a regra seja a origem da possibilidade de transgressão, ou seja, que o pecado seja conseqüência da proibição. O processo é inverso, é a linguagem profana e censurada do corpo que tenta apoderar-se da palavra sagrada diretamente relacionada à voz, à sabedoria, ao poder e à ancestralidade do pai.

A presença do lirismo desta forma desmesurada, de uma fluidez que em certo sentido não deixa de ser obscena, acaba por ocasionar mais um antagonismo, o da fusão de dois tempos: um, o tempo cronológico da narrativa; outro, o tempo mítico, atemporal, originário, criador da poesia lírica, remetendo a um passado que não necessariamente existiu. Estabelece-se, desta sorte, um jogo com a memória, ao tentar apoderar-se de um passado, em certo sentido mítico, sagrado que permita a participação num imaginário coletivo e assim sendo permita a identificação com uma comunidade. Obtém-se, destarte, a inversão de uma outra ordem. A recordação não mais parece gerar um vínculo com as raízes e um passado. É a ausência deste vínculo que acaba por tornar obrigatória a existência das recordações.

A citação mais que preencher cria um vazio, gera necessidades. Assim como o alimento surge com o intuito de aliviar a fome mas acaba por acordar o desejo pela comida. Do mesmo modo, a ancestralidade da palavra sagrada citada na narrativa, não aproxima o indivíduo de sua origem, acentua a distancia que os separa. Torna-se conseqüentemente nula neste contexto a afirmação de que “toda a prática de texto é sempre citação e é por isso que não é possível nenhuma definição da citação. Ela pertence à origem, é uma rememoração da origem (...).”[1]

Se em Lavoura Arcaica, ao contrário, a origem que deveria ser o lugar de encontro propicia em verdade o isolamento, a fragmentação, o desencontro e se a memória, de igual modo, não rememora, mas cria; um estudo mais aprofundado das citações, em especial do alcorão, neste romance permitiriam provavelmente contribuir com suas conclusões para a compreensão de certos aspectos na construção da identidade de indivíduos que por razões adversas estão impedidos de verificar suas raízes.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

COMPAGNON, Antoine. O Trabalho da Citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996.

NASSAR, Raduan, Lavoura Arcaica. 3ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SCHOLLHAMMMER, Karl Erik. O cenário do ambíguo: traços barrocos na prosa moderna. Sociedade e Estado, vol. VII, no. 1 e 2/1994.



[1] COMPAGNON, A. O Trabalho da Citação.p.31